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O que é verdade?

Essa cadeira onde você está sentado, será que ela existe de verdade? Sim, sem dúvida, caso contrário você cairia no chão. E se eu te disser que eu vim de outro planeta em um disco voador? Vai considerar como verdade? Claro que não. Provavelmente vai me recomendar que procure tratamento médico.

Isso porque você sabe que tem o direito de duvidar de qualquer coisa que lhe digam, é uma obrigação que você tem para consigo mesmo. Se você acreditar em bobagens sem fundamento, com o tempo se tornará alguém que pode ser manipulado com facilidade, um crédulo. Vão tirar proveito de você sem que perceba.

Como é possível verificar que uma afirmação é verdadeira, que merece sua confiança? Você vai confrontar a nova alegação com outras coisas que você já conhece e ver se ela se encaixa sem deixar rebarbas.

Se eu te disser que meu canário fugiu carregando a gaiola, você não vai acreditar, porque na sua cabeça já existe a informação que um passarinho não é capaz de levantar a própria gaiola, muito menos de voar com ela. Então você vai corajosamente rir da minha cara e dizer que eu estou mentindo. E se eu for uma pessoa idosa e respeitada? E se eu te disser que não era meu o canário, e sim do meu falecido avô, que era uma pessoa muito íntegra e confiável, acima de qualquer suspeita e que me garantiu o ocorrido? E se eu te mostrar um livro oficial com a descrição e ilustrações do tal canário?

Não sei se você percebe, mas a afirmação inicial, que era absolutamente inacreditável, já está ficando com cara de "pode ser". Se de antemão eu já tivesse começado dizendo que o ocorrido foi registrado no Guinness, talvez você nem tivesse duvidado. Tenho certeza que se eu enfeitar a estória o suficiente, conseguirei convencer um bocado de gente, que não apenas vai acreditar, mas vai também repassar a estória. Chegará um ponto em que o canário será tão verdadeiro como o sol que passa todos os dias sobre nossas cabeças (na verdade ele não passa. A Terra é que gira).

O pior não é isso. O pior é que com base nessa "verdade", é possível montar ainda outras, um sistema de "verdades", pois nosso conhecimento é construído de tal modo que uma alegação nova se ampara nas outras que já temos como verdadeiras, num efeito cascata.

Agora digamos que durante um período qualquer da vida esse sistema de verificação não funcione direito, por algum motivo. Através dessa falha, idéias falsas acabam sendo aceitas como verdadeiras, mesmo não havendo como comprová-las. Isso pode ocasionar um estrago e tanto, porque posteriormente outros conceitos enganosos serão aceitos como sendo verdade, baseados naquelas primeiras inverdades que já haviam sido assimiladas.

Exemplo 1: quando somos crianças não conhecemos o funcionamento do mundo para julgar as alegações sobre o que é verdade e o que não é. Como resultado acreditamos que o papai-noel nos deixa presentes de natal. Se nossos pais disseram, então só pode ser verdade. Não há questionamento, ainda mais porque queremos acreditar. Somos recompensados por acreditar. Mais tarde, quando crescemos e descobrimos a verdade, nos lembramos de como era gostoso o chamado espírito de natal, em que nos reuníamos com a família e amigos. Por isso concluímos romanticamente que é aceitável crer em coisas imaginárias.

Exemplo 2: uma pessoa emocionalmente frágil, por uma dificuldade recente (morte na família, sérios problemas financeiros, ou doença), também tende a agarrar-se a qualquer tronco que passe na correnteza, porque ela precisa desesperadamente acreditar em alguma coisa, ela quer acreditar. O que não falta são boas almas de plantão, ávidas por este momento singular, em que podem propagar suas crenças sem fundamento.

Agora que você está bem tranqüilo, já não é mais criança, eu te pergunto: quando foi que te disseram que existe um céu e um inferno, e que tem alguém lá no céu olhando tudo o que você faz?

Desdobramento